Uma empresa de bebidas energéticas valia cerca de US$23 bilhões em maio de 2024. Hoje vale perto de US$7 bilhões. Uma queda de 70% — e com ela a pergunta que sempre aparece: será que está barata? Aqui existem duas armadilhas, uma em cima da outra. A primeira é que queda se mede contra o preço de antes, e desconto se mede contra o valor — são duas réguas diferentes, e quase todo mundo usa a primeira achando que está usando a segunda.
O mercado paga 4.6× o valor do negócio.
Quanto custa hoje, depois de cair 70% desde o pico, contra o que o nosso modelo calcula que o negócio vale. Repare na régua: a referência não é quanto custava em 2024 — é quanto a empresa rende.
Aí está a primeira armadilha desarmada. O preço caiu muito; a distância contra o valor continua grande. Cair não é a mesma coisa que estar barato, e o único jeito de perceber a diferença é parar de olhar o gráfico e olhar o negócio.
E a segunda armadilha: o dado que decide se uma empresa dá para avaliar
Calcular quanto vale um negócio é, no fundo, estimar quanto dinheiro ele vai deixar no bolso do dono, ano após ano. Para isso é preciso uma coisa entediante: que esse dinheiro se pareça com o do ano passado. Se ele troca de sinal a cada doze meses, qualquer número que você calcule carrega uma margem de erro tão larga que deixa de ser um número.
−20% → +22% → 5%
Margem operacional da Celsius em poucos anos
Do vermelho profundo ao melhor exercício da história e de volta a um dígito só. Dados dos próprios balanços da companhia.
A Monster, no mesmo período, ficou entre 25% e 35%. Cinco anos dentro de uma faixa estreita. É essa faixa que permite a um modelo de valor dizer algo útil sobre a Monster e quase nada de útil sobre a Celsius. Não é que uma seja boa e a outra ruim: é que uma dá para medir.
Um negócio que não dá para calcular não é oportunidade nem armadilha. É uma incógnita — e incógnita não se compra com desconto.
Crescer comprando não é a mesma coisa que crescer
Na manchete, a Celsius cresce em ritmo espetacular. Mas boa parte desse crescimento entrou pelo caixa: em abril de 2025 comprou a Alani Nu por cerca de US$1,8 bilhão, e antes já tinha somado a Rockstar. Enquanto isso, a marca que dá nome à empresa caiu daqueles 12% de participação para perto de 9,5%, e a Rockstar vendeu 13% menos no primeiro trimestre de 2026 do que um ano antes.
A Monster fez o contrário nesse mesmo trimestre: cresceu perto de 20% sendo três vezes maior. A manchete diz que uma cresce mais rápido. Os livros dizem que uma comprou e a outra vendeu.
E o que te impede de trocar de lata?
Fosso é o que torna caro ir embora. Trocar de banco dá trabalho; trocar de sistema operacional custa reaprender. Trocar de energético não custa nada: você deixa a lata na prateleira e pega outra. A vantagem da Celsius é a marca, e marca sozinha é um dos fossos mais frágeis que existem — obriga a reconquistar o cliente a cada corredor de supermercado.
Participações de mercado e vendas no varejo: dados de mercado de domínio público. Margens operacionais, receita por região e a aquisição da Alani Nu: balanços e comunicados de resultados da Celsius Holdings e da Monster Beverage. Os números de preço e valor dos quadros são do nosso modelo, ao vivo.